Trintão

Sem maturidade para isso – Netflix

A gente aprende o medo de virar um trintão. Uma pessoa que prefere Netflix a balada, e cujo melhor amigo é o marido ou esposa. Alguém que se anima com um bom restaurante, mas não vê graça na ideia de ficar “bem louco”. E, quando percebo que já virei esse cara, uma parte de mim lamenta a energia que não tenho mais.

Na minha adolescência, se a festa estava ruim, eu dava um jeito de animar todo mundo. Se o papo era chato, eu fazia os outros rirem. Hoje só quero evitar esse tipo de situação. Eu me recuso a me desdobrar para alegrar ambientes sem graça. Prefiro ir embora com uma desculpa e procurar um filminho. De preferência bobo, que não tenha nada a ver com os dramas profundos que eu adorava quando era moleque.

Meu Deus! O que está acontecendo comigo? Estou ficando velho?

A parte da minha mente que pergunta isso deve ser minha memória. O eu do passado que às vezes não percebe que não manda mais, e acha que pode ser jovem para sempre, que é uma questão de escolha; de se manter “positivo”. Como se ficar um pouco mais velho, desanimado e ranzinza fosse negativo. Na verdade, é bem gostosinho.

A parte mais atual da minha cabeça sabe que esperar de mim a personalidade que tive há dez anos é o mesmo que desejar, aos vinte, a personalidade que tinha aos dez.

Eu não quero ser um adulto sempre igual, porque isso significa que não estou crescendo. Nada que cresce fica sempre com a mesma cara.

A lucidez me encontra quando reparo que é um privilégio cantar “meu melhor amigo é o meu amor”. Que nenhum amigo da minha juventude se compara ao meu namorado.

Ser a alegria da festa pode ser divertido quando a gente tem energia de sobra. Mas uma festa que depende de mim para ficar boa, sinceramente, é uma festa ruim. E muitos filmes são melhores do que festas ruins.

Nossas expectativas impráticas de ser eternamente jovens são alimentadas pela constante romantização da juventude na nossa cultura. E sim, ser jovem é se aventurar, sonhar, e um monte de outras coisas boas. Mas também é inexperiência, ingenuidade, fragilidade, e um monte de outras coisas que só melhoram com tempo.

Meu metabolismo está desacelerando. Estou começando a me interessar por colágeno, e café pode me deixar ansioso. Mas, nesse corpinho trintão, me encontro mais confortável do que nunca. Não apenas com minha aparência, mas com minhas escolhas e identidade. Hoje, gosto mais da vida do que quando eu era adolescente.

Para o jovem, a desilusão é um pesadelo. Para o adulto corajoso, uma das melhores amigas — coisa que um jovem pode achar sombrio, mas eu sei que é pura sorte.

Deixo de me cobrar por quem eu era quando percebo que estou mais em paz comigo e com o mundo do que jamais estive. Que maturidade não é peso; é bônus. Mudar não é apenas inevitável, como esperado. E crescer é um presente.

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