Homem-Aranha: Sem Volta para Casa

Alguém tuitou que o último filme do Teioso foi um abraço da Marvel com duas horas de duração. Eu concordo. Tirei a teima no cinema esta semana e, depois dos créditos, passei o resto da noite sem conseguir pensar em mais nada, apenas flutuando com a satisfação de um fã que teve suas expectativas superadas.

Vou contar o que achei bom e ruim na terceira parte dessa saga, com o olhar de quem acompanhou toda a trajetória do Cabeça de Teia e da Marvel no cinema. Vem spoiler por aí, caso não tenha visto o filme ainda.

Primeiramente, tive uma experiência muito recompensadora porque fiz um grande esforço para evitar os memes e os vazamentos sobre No Way Home. Nem assisti ao trailer. A única coisa que eu sabia era que o Doutor Ocotpus apareceria, encarnado pelo próprio Alfred Molina. Todos os outros atores que reprisaram seus papéis foram surpresa para mim.

Crédito: Marvel Studios

Uma das coisas mais deliciosas de Sem Volta para Casa é que soube o que fazer com seus vilões na maior parte do tempo. Eu não imaginava que Willen Dafoe teria o espírito esportivo para voltar a se envolver com o Aranhaverso, especialmente logo depois de estrelar um filme tão artístico e sério como O Farol. Mas é ele que ganha destaque entre os inimigos de Peter Parker, que é exatamente o que deveria acontecer. Ao longo das três sagas do Aranha no cinema, nenhum outro vilão causou maior impacto que o Duende Verde. Dafoe convenceu e conquistou os fãs do Teioso com um misto perfeito entre o cômico, o insano e o assustador, dominando o maior desafio apresentado para qualquer um que interpretou um inimigo do Peter Parker no cinema. E agora ele volta para outra sova de atuação, reconsagrando sua risada maléfica sem nunca ultrapassar a linha da cafonice — em vez disso, causando arrepios com o discurso mais cruel que um Homem-Aranha já ouviu em qualquer filme.

Crédito: Marvel Studios

Em Homem-Aranha 2, de 2004, Otto Octavius deu muito mais sinais de remorso do que Norman Osborn no filme anterior, de 2002. Enquanto o Duende Verde morre fingindo recuperar a consciência para aplicar seu golpe final, o Dr. Octopus realmente se liberta do domínio dos seus tentáculos e morre num autossacrifício que o redime de tudo o que aprontou. Molina é o único em papel de arqui-inimigo emanando aquele calor paterno que faz a gente torcer para que ele tenha um final feliz. Nada mais justo do que ele ser decisivo para a vitória de Peter Parker na batalha final de No Way Home.

Esse filme revela quantos acertos as franquias do Aranha tiveram até agora, tanto em escalação quanto em design. Repare como os símbolos e uniformes cinematográficos do Batman terminam sempre datados. Como os trajes dos X-Men vivem sendo redesenhados. Quem diria que os tentáculos mecânicos de Otto e armadura duêndica de Norman funcionariam na telona quase vinte anos mais tarde? Todos os brasões do Aranha continuam legais também. Quanto ao elenco, você não sabe se ama mais os vilões ou os Spiders, mas nenhum deles parece estar no filme errado, o que não é nada fácil de se conseguir.

Como acontece com frequência nos crossovers cada vez mais audaciosos da Marvel, é difícil dar a cada personagem importante um tempo de tela satisfatório. Muita gente discute qual é o melhor Peter Parker ou o melhor Homem-Aranha, e pouco se fala sobre um fato incontestável: no quesito carisma, os vilões da era Garfield não chegam nem perto dos da era Maguire. Por isso, Sem Volta para Casa acerta ao dar menos atenção a Electro e Lagarto.

Por falar nisso, faltou certo cuidado com o Homem-Areia. No filme de 2007, os efeitos especiais surpreenderam, rendendo até uma cena que se tornou épica para os fãs do Aranha — aquela quando Flint Marko sofre o acidente que o transforma para sempre, banhada em uma trilha sonora que quase faz a gente chorar pela sua triste transformação. (Vale a pena rever abaixo.) Em No Way Home, a areia não convence tanto, o que decepciona um pouco porque que a gente acaba esperando hoje algo mais realista do que lá atrás. E eu também diria o mesmo do Lagarto. Parece que economizaram um pouco nesse personagem, deixando o cara sempre no escuro. Acaba que ele não parece tão real como outras criaturas que a Marvel já animou, como o Rocket de Guardiões da Galáxia, por exemplo.

Outro problema do filme foi a infantilização do seu tom em relação aos demais do UCM. Com diálogos simplórios e piadas bobinhas, parece ter havido um esforço para cativar um público mais jovem do que os fãs do Tobey Maguire. Não estou dizendo que seja ruim que a Marvel trabalhe sempre com alívio cômico, o que muita gente critica para soar bacana, porque a verdade é que os Vingadores e os Guardiões tiraram gargalhadas boas e inesperadas de todo mundo. O problema é que Sem Volta para Casa às vezes chega perto da tonteira de Homem-Formiga e a Vespa, inclusive infantilizando o Dr. Estranho, o que torna difícil acreditar em Cumberbatch, que normalmente consegue convencer em qualquer papel. Ninguém merece um Strange meio bocó.

Os filmes da Marvel são comerciais e para entretenimento, então não deveria haver tanta reclamação da falta de profundidade dos diálogos e temáticas explorados em seus filmes. Mas eu acredito que quem acompanha o UCM desde o começo percebeu uma mudança significativa na qualidade do texto em No Way Home, não apenas em relação aos outros filmes do Aracnídeo, como também em relação a todo o primeiro arco dos Vingadores.

Outra implicância minha é com o uso desnecessário de chroma key. Mas isso não é só com a Marvel. Parece que ninguém mais sabe filmar à noite ao ar livre, por exemplo. Acho cansativo sentir uma atmosfera constante de artificialidade. Os primeiros filmes do Aranha carregam uma magia aconchegante por oferecer uma experiência mais imersiva com menos uso de CGI. Você sente a textura das paredes do muquifo onde o Parker mora, e quase sente o vento bater na cara quando ele balança entre os arranha-céus em sua teia. A experiência aérea das duas últimas trilogias do Teioso deixaram a desejar, na minha opinião, considerando a tecnologia implementada em cada produção.

Minha última reclamação é que as cenas de batalha me pareceram meio lentas. Em todos os filmes dos Vingadores e do Capitão América, a Marvel provou que pode trabalhar com coreografias de acelerar o coração de qualquer marvete. Não tem como esperar pouco de uma batalha com três Aranhas, um cara que dispara raios, outro num planador, e um com quatro tentáculos metálicos. Mas parece que Sem Volta errou a mão no ritmo do mesmo jeito que Homem-Aranha 3 — aquele em que Venom, Duende Jr. e Homem-Areia parecem não fazer tanto estrago juntos.

Acontece que o apelo de Longe de Casa não é a ação, o diálogo ou os efeitos especiais. Esse foi um presente para os fãs, que são os únicos que podem atestar do valor emocional que o filme tem. Ver Tobey Maguire, Andrew Garfield e Tom Holland juntos era um sonho que a gente nutria desde os primeiros rumores sobre a introdução do Multiverso no UCM por causa do Doutor Estranho, lá em 2016. Particularmente, nunca achei isso que passaria de uma fantasia absurda. Mas lá estão os três. O primeiro Parker, nerd e cheio de sentimentos; o segundo, inteligente e charmoso; e o Parker 3, inexperiente e estabanado. Todos compartilhando seus maiores traumas e superações, acendendo uma luz de esperança para a molecada que cresceu assistindo a esses caras, e que agora tem a idade de pelo menos um deles.

Crédito: Marvel Studios

O filme conseguiu tocar a gente sem precisar ser sentimentalista. Eu, por ser particularmente profundo, esperava grandes falas para os Parkers antecessores, mas confesso que preferi a coisa toda como ficou. Com o tempo de tela que cada um poderia ter e a carga emocional que o encontro desses três acarreta, qualquer aprofundamento arriscaria o melodrama. O que me faz pensar que, se as cenas de ação fossem mais ágeis, com tanta gente voando e explodindo coisas, talvez ficasse tudo meio visualmente poluído.

Na sala de cinema onde eu estava, vi a plateia comemorar e marmanjo chorar. Fan-service costuma ser coisa mal-vista, mas eu só tenho a agradecer à Marvel pelo imbatível serviço que prestou aos fãs do super-herói mais querido do mundo.

AVALIAÇÃO:

Avaliação: 3 de 5.

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