Luca versus Encanto

Quem acompanhou as produções da Pixar desde o começo sabe que tinham algo marcante em comum: elas encantavam. Lembro de quando assisti a Toy Story pela primeira vez em 1995, aos nove anos, com minha irmã mais nova. Quando o filme terminou, vibramos juntos de mãos para cima. Perguntei “Vamos ver de novo?”, ela concordou, rebobinamos o VHS, e vimos tudo outra vez.

De lá para cá, como Toy Story 4 demonstra claramente, a Pixar buscou maneiras de manter a magia viva para um público cada vez mais velho que continua acompanhando suas criações. Em grande parte por causa da sua influência, a indústria da animação cresceu muito e, com isso, aumentam a demanda e o volume de produções do gênero, e um catálogo com inúmeras opções não pode ser feito apenas de obras-primas. Além disso, é difícil repetir o impacto que certos longas animados tiveram ao elevar o potencial de sua categoria numa época em que havia mais espaço para surpreender porque tudo era novidade.

Só quem viu Procurando Nemo em 2003 sabe o tamanho desse filme. Nem Vida de Inseto ou Monstros S.A. nos preparam para aquele espetáculo. O realismo de tudo, a sensação de imensidão, a epicidade da jornada, o carisma dos personagens, os corações dilacerados logo nos primeiros cinco minutos…! Muita coisa boa veio depois, claro. Ratatouille, WALL-E, e Up foram alguns dos melhores do estúdio. Mas não causaram a mesma impressão que a história do peixinho palhaço.

Viva — a Vida é uma Festa e Divertidamente reforçam o único fato cinematográfico sobre o qual o mundo inteiro concorda: a Pixar sempre surpreende e emociona. Mas desde Nemo, o único filme que tinha me trazido de novo aquela sensação de deslumbramento e paixão instanânea foi um que pouca gente viu: o belíssimo O Bom Dinossauro, que vai ganhar um post só para ele aqui, um dia. Então chegamos a 2021, com Luca e Encanto, que ilustram perfeitamente o que venho dizendo até agora.

Encanto

Nessa coisa de abordar temas complexos com leveza, Encanto faz um excelente trabalho. Quanto mais você observa a mensagem do filme para o público adulto, mais percebe as várias camadas dos esteriótipos apresentados, e como são delicadas as questões típicas da geração burnout, de jovens adultos perdidos em personagens socialmente aceitos, reforçados por dinâmicas familiares nocivas.

Por outro lado, o longa tem uma narrativa muito mais ágil do que estamos acostumados a ver em animações. Com tanta informação entregue de uma vez, tem quem fique com a sensação de que tudo ficou muito corrido. Além disso, fugindo também ao costume do público, Encanto não gasta tempo explicando a magia. Quem vê animação japonesa está acostumado com isso e não se incomoda tanto, mas quem só tem referência Disney quer respostas que não vai ter.

Também tem muita gente reclamando que as músicas são “chatas”. Acredito que isso se deva a confundir chatice com complexidade. Os fãs obcecados por hits da Disney como Nesta Noite o Amor Chegou e Livre Estou estão acostumados a canções chiclete, de refrões arrastados — as verdadeiras canções chatas. Mas essa mesma galera nem sequer comenta Un Poquito Loco, de Viva ou Fogo do Inferno, de O Corcunda de Notre Dame, que são impressionantes e emocionantes de maneiras diferentes, mas difíceis de cantar junto.

A música de Encanto não é ruim. Longe disso. Acontece que apenas uma de suas canções fica na cabeça — Não Falamos do Bruno, que inclusive bombou no Spotify. E com razão. Confesso que é meu número musical favorito do longa.

Contudo, o ritmo do filme e a quantidade de acontecimentos que ele narra é tamanha, que não fica tempo para se aprofundar nas histórias dos personagens, que também são vários. Pelo menos muita gente reclama disso, como se o filme fosse feito para adultos. Não. Encanto apela aos adultos, mas mira nas crianças, que realmente precisam de menos profundidade e mais diversão na tela. Aposto que essa molecada que vive com tablet na mão não achou o filme assim, tão difícil de acompanhar. O real problema de Encanto é a falta do fascínio que a geração mais velha sempre busca na Pixar.

Luca

Caso você precise provar que menos pode ser mais até no cinema, achou seu argumento. Luca não depende de música, não precisa de super vilões, nem cria um mega universo de magia e plot twists. Enrico Casarosa, diretor do filme, disse que o escreveu inspirado em suas próprias histórias de infância, e em um amigo real que sempre o colocava em apuros, chamado Alberto. Simples assim.

Luca também não explica sua magia. Nem se aprofunda demais nos personagens. Não entrega nenhum sucesso musical. Mas você não encontra ninguém reclamando dessas coisas, porque o longa é apaixonante demais para receber hate.

Num desenrolar mais lento e uma quantidade menor de eventos e personagens, sobra mais tempo para o deslumbramento. E você não consegue deixar de reparar na qualidade dos detalhes e em certas tomadas feitas apenas para nos imergir na beleza da locação.

O filme todo carrega uma atmosfera calorosa, e faz sentir que você está numa cidade que merece ser aproveitada. É relaxante e acolhedor, quase como a ambientação de Me Chame Pelo seu Nome.

Luca versus Encanto

Luca é bem covarde e medroso até o ponto de fazer o imperdoável, enquanto Alberto é cronicamente arrogante e mandão. E tudo o que você faz é amar os dois desde o início, porque eles são crianças e são muito humanos. Diferentemente do que a família Madrigal aparenta em Encanto, onde quase todo mundo é super, e os “normais” não são muito cativantes.

De verdade, a gente devia torcer pela Mirabel logo que ela canta a primeira música, mas ela, por alguma razão, tem menos carisma do que seus tios Félix e Bruno — um com grande senso de humor, e outro claramente transtornado. Ambos, mais humanizados do que a protagonista.

É interessante que Encanto, com tantos personagens e cenários que dão chance para o cômico, só arranca duas risadas, enquanto um núcleo de quatro personagens em Luca faz a gente rir o tempo todo.

Acredito que uma criança provavelmente adoraria os dois filmes na mesma medida ou até gostaria mais de Encanto, com toda aquela ação, o que significa que nenhum dos dois é necessariamente ruim. Mas, de um ponto de vista adulto, eu diria que Luca é um filme mais bonito, mais bem feito, e mais gostoso de assistir. E ele ainda carrega o fator que fez a gente se enamorar da Pixar.

AVALIAÇÃO – ENCANTO:

Avaliação: 3 de 5.

AVALIAÇÃO – LUCA:

Avaliação: 4.5 de 5.

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