Bliss: em busca da felicidade

Os comentários mais repetidos sobre Bliss desapontam. Dizem que o filme é raso, que parece um Matrix mal feito, e que os atores não convencem. Quem alega isso são as mesmas pessoas que se sentiram perdidas na trama, não conseguiram diferenciar entre realidade e fantasia ou que acreditam que a história não passa de uma propaganda antidrogas. Comentários que não devem ser levados a sério.

Para quem não entendeu nada

Sempre vejo as pessoas criticando Bliss partindo do pressuposto de que é uma ficção científica sobre realidade simulada, e as duas coisas estão erradas. A história é um drama que não aborda uma simulação verdadeira.

Não existe algo mágico acontecendo. Nem as velas acendendo nem poderes telecinéticos. Não há simulações de mundos, o que já prova que a comparação com Matrix, apesar de previsível, é tosca. Também não há realmente “pessoas falsas”, nem um mundo belo e perfeito. Essa é a história de duas pessoas com transtornos mentais que se encontram no mundo das drogas e dividem uma viagem alucinógena que se torna mais sofisticada conforme usam drogas mais pesadas. Apesar disso, a mensagem aqui não se limita às temáticas da saúde mental ou da dependência química.

No mundo real, que é aquele horroroso onde moram os filhos de Greg, os cristais amarelos são uma droga sofisticada que permite que ele e Isabel dividam alucinações relativamente simples. Sob seu efeito, ambos podem ver o chefe de Greg caindo pela janela e outras pessoas sendo jogadas ao chão por meio de seus gestos mágicos. Esse alucinógeno oferece uma sensação de liberdade por meio do aparente controle da realidade.

Já os cristais azuis oferecem uma experiência bem mais complexa, onde a feiúra do mundo real dá lugar a uma realidade paradisíaca. O controle não é mais necessário, pois o mundo é perfeito, e é finalmente possível experimentar bliss — êxtase. Acaba a necessidade de estar “em busca da felicidade”. É a partir da experiência com essa alucinação que Isabel passa a acreditar que o mundo real é uma simulação, e a maioria das pessoas ali é “de mentira”.

Não dava para isso ficar mais evidente?

Vários expectadores parecem se perguntar por que o filme não deixa isso tudo mais claro, e acham que é por incompetência da produção. Na verdade, essa confusão só reforça que o filme teve boa direção e atuações, pois sua intenção é oferecer uma experiência imersiva de desassociação da realidade. Bliss confunde, não por ser mal feito ou não saber se explicar, mas porque atinge seu objetivo — colocar o expectador na mesma situação de Greg, de questionar seu mundo constantemente.

Muita gente reclama da atuação de Owen Wilson e Salma Hayek por não convencer — isto é, por parecerem inautênticos em cena, oscilando entre diferentes estados de personalidade, de modo que seja difícil acompanhar o que se passa dentro deles. Mas essa impressão, além de ser difícil de causar, também era exatamente o que os atores precisavam transmitir, já que seus personagens não sabem o que é real sobre si próprios e o mundo ao seu redor. Como são duas pessoas sob efeito de drogas desconhecidas, imersas em transtornos mentais, e viajando entre diferentes interpretações do mundo ao seu redor, é natural que seja difícil acompanhá-los e se identificar com eles do mesmo modo que em Marley e Eu e Gente Grande. Eles mandaram bem em parecer não auênticos.

É mais ou menos como o caso de Jennifer Lawrence em Trapaça. A atuação dela foi elogiadíssima porque conseguiu representar uma personagem que não convence. Ela parece estar atuando porque seu papel é de uma mulher que, realmente, representa o tempo todo diante dos outros.

Outra reclamação recorrente e igualmente irônica dos Zé Pipoca é que o roteiro explica demais, tornando o universo que retrata mais difícil de entender do que o necessário. Essa ultra explicação, no entando, não aborda o que é verdade no mundo de Greg — isso é um mistério durante quase toda a duração do filme. O que se explica demais é justamente o que resulta da mente fértil e problemática de Isa. Essa constante explanação no roteiro é não apenas compreensível como essencial, porque retrata a elaborada maneira como podemos racionalizar nossos delírios. Tanto é um acerto, que os haters acreditam na história que Isabel conta.

Mais profundo

A maestria do diretor Mike Cahill está em conseguir desdobrar seu roteiro em uma série de questões. Ele nos faz sentir a experiência de pessoas com as quais raramente pensamos em nos identificar; pessoas em situações de rua, sob o domínio de drogas e psicoses, mas sem parar por aí. Na pele de Greg, recém divorciado e apaixonado por Isabel, questionamos como um relacionamento amoroso pode moldar nossa realidade. Quando um parceiro está manipulando e quando mente sem se dar conta? Como dizer adeus a uma relação de codependência com a pessoa que nos trouxe a maior felicidade que já provamos? Especialmente se, sem nós, esse indivíduo estará sozinho no mundo, mais devastado que nunca, e sem alguém para entendê-lo em suas debilidades.

Em sua psicose, Isabel não distingue fato de fantasia. Ao conhecer Greg, o arrasta para o que imagina ser verdadeiro. Ele, por sua vez, também se perde no êxtase de aproveitar a beleza de tudo como se fosse a primeira vez, se distanciando cada vez mais da realidade sem perceber.

Nesse sentido, Bliss abre um questionamento sobre a busca da felicidade. Todos temos o instinto de transcender o sofrimento e, se pudéssemos, escolheríamos uma vida que pudéssemos controlar ou uma de pura beleza e constante alegria. Um mundo belo e sem dor seria melhor que o nosso? Ao pensar isso, negamos a realidade de uma maneira ou de outra. Somos como Greg e Isa, mesmo em contextos diferentes. O filme, então, lida com a vivência de todo ser humano na tentativa de substituir o real pelo ideal de qualquer maneira possível.

Nesse ímpeto, tendemos a nos afastar das pessoas — até mesmo das que nos amam — pois é difícil, na constante busca por êxtase, perceber que os outros também são pessoas reais, com dores reais, e dividindo a realidade conosco. Perseguindo a felicidade a todo custo, podemos focar apenas na nossa experiência, e a feiúra do mundo parece um ataque pessoal, que ninguém percebe tão bem quanto a gente.

Pessoas reais

Uma pergunta muito importante que martela nossa cabeça por toda a duração de Bliss é: Quem são as pessoas reais?

Para Isa, apenas os que enxergam as coisas à sua maneira parecem ser “reais”, por mais alucinados e delirantes que estejam. As pessoas “comuns”, por não dividir a visão delirante que Isabel tem do mundo, parecem reagir a ele como meros figurantes. Gente que aparente regaria à “realidade” de maneira tão superficial acaba ganhando um aspecto de irrealidade. Essa é uma tendência de todos nós; de não considerar o outro tão genuíno quanto eu, porque vê o mundo de forma diferente de mim, de maneira simplista em relação à sofisticação que atribuo ao meu próprio ego.

Por outro lado, nós, que não vivenciamos as mesmas situações extremas que Greg e Isa, somos as “pessoas falsas” desse cenário — um lembrete de que muita gente que consideramos louca ou irrmediável está experimentando o mundo real de uma maneira que nunca provaremos da nossa posição de privilégio. Elas são apenas gente como nós, à procura da felicidade, imaginando que ela reside no controle da realidade ou na ausência do sofrimento.

O slogan do filme é Chase something real — busque algo real, evidenciando a mensagem, afinal. Pode procurar a felicidade, mas não em um amor perfeito, em mundos simulados, em entorpecentes, trabalho, na tentativa de controlar as coisas ou anular a dor. O êxtase está nesse mundo, tão quebrado quanto nosso interior. A verdade liberta, e as ilusões apenas mascaram o inevitável. E você não está sozinho se demora para achar algo real: todos temos nossas fantasias. Pelo menos para Greg, o que havia de mais verdadeiro, e que valia mais a pena perseguir do que poder, romance e perfeição, era o amor incondicional de sua filha.

AVALIAÇÃO:

Avaliação: 3.5 de 5.

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