Filmes-conforto

Quem ama cinema conhece bem o prazer de reassistir. Você deve conhecer a expressão em inglês comfort show, para aqueles seriados e filmes que a gente nunca cansa de rever.

A experiência inédita é uma, a repetida é outra. Todo mundo repete o que estimula a dopamina, e é por isso que às vezes nenhuma das séries que estamos acompanhando é exatamente o que queremos ver, e a gente se pega repetindo um episódio aleatório de Friends, The Office ou How I Met Your Mother.

As pesquisas de Nicholas Christenfeld e Jonathan Leavitt, da Universidade da Califórnia em San Diego, concluíram que spoilers não estragam as histórias. Na verdade, aproveitamos mais um livro, filme ou seriado quando sabemos como eles terminam. Você nem precisa de provas disso, porque provavelmente se apressa para ver o último trailer da Marvel e conhece o mercado de furos e vazamentos alimentado nas redes sociais pelos próprios fãs.

Spoilers, em vez de estragar a experiência de assistir a um filme, podem deixá-la ainda melhor. Por isso temos nossos filmes-conforto
O elenco de Os Suspeitos, 1995

Se você sabe o final [de Os Suspeitos] enquanto assiste, pode entender o que o cineasta está fazendo. Você consegue ter uma visão mais ampla e, essencialmente, entender a história com mais fluência.

Há muitas evidências de que esse processamento fluente de informações é prazeroso; isto é, alguma familiaridade com uma obra de arte permite que você a aprecie mais.

Nicholas Christenfeld

Quando vi Matrix pela primeira vez, eu tinha treze aninhos e pensei que fosse uma metáfora sobre se converter ao Cristianismo e passar a acessar o “mundo espiritual”. (Calma, eu mudei.) De lá para cá, rever o filme é cada vez mais gostoso. Botei no streaming para o meu namorado assistir no mês passado, e adorei antecipar cada momento icônico, como o chute de Neo no Agente Smith depois de ser ressuscitado pelo beijo de Trinity. Se você não sabe do que estou falando, tranquilo: esse spoiler só vai tornar a cena ainda mais eletrizante para você, caso tenha vivido num abrigo antibombas esse tempo todo e não tenha visto Matrix ainda.

(A última frase poderia ser uma referência a Unbreakable Kimmy Schmidt, mas é mais sombrio. O que tenho em mente é uma comédia romântica do mesmo ano de Matrix, chamada De Volta Para o Presente, com Brendan Fraser e a mitológica Alicia Silverstone. Quero reassistir.)

Os progagonistas de De Volta para o Presente, 1999

Gosto de rever filmes que amei de cara, mas também sempre volto aos que foram muito elogiados e não me impressionaram. Isso em grande parte por causa da experiência que tive com Gênio Indomável. Assisti quando moleque e criei uma opinião morna sobre ele. E foi justamente porque eu era jovem demais para aquilo. Anos mais tarde, revendo essa obra-prima, chorei copiosamente ao me descobrir como seu único e definitivo público-alvo.

Hoje fui influenciado a escrever por A Vida Secreta de Walter Mitty. Se você googar o título, vai ver que o público lhe rendeu 4.9 estrelas de cinco, o que foi muita generosidade. Um cara comentou “esse filme me impactou absurdamente”, seguido da mulher que disse “mexeu comigo profundamente”. Tenho quase certeza de que os dois usaram hipérboles, porque tamanha comoção só poderia partir de pessoas que nunca viram filmes melhores. Mas confesso que a sessão de hoje aqui em casa foi bem mais legal do que a de 2013, quando Mitty foi lançado. Consegui observar melhor a trilha sonora, me identificar mais com o protagonista, e passei de achar o Sean irritante a considerá-lo um cara que gostaria de conhecer na vida real. A foto que ele chama de quintessência do seu trabalho, da qual eu não tinha nenhuma recordação, quase me causou um arrepio quando apareceu na tela. Aquilo, sim, é um presente.

Sean Penn em A Vida Secreta de Walter Mitty, 2013

Walter Mitty está longe de ser um filmaço, mas acho que nem tem essa intenção. E o que pretende, consegue. Desacelera, abre espaço, e emociona sem ficar cantarolando “olha como eu sou emocionante” e. Além do mais, quem não gosta de Ben Stiller e Kristen Wiig, bom sujeito, não é. Aposto que o eterno Zoolander ficou muito orgulhoso de ter dirigido o longa, assim como eu fiquei, do meu lugar de fã.

Então fica aqui a dica para você ver ou rever A Vida Secreta de Walter Mitty se quiser mais um item na sua lista de filmes-conforto. Na minha, ele já entrou.

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