Guardiões da Justiça: eu avisei

Se você ainda não cansou de acompanhar sagas de super-heróis, deve estar curioso com a nova série da Netflix, Guardiões da Justiça. Especialmente se você ama o visual oitentista que a plataforma sempre usa tão bem, como o cartaz da série prova.

Os primeiros comentários que apareceram no Twitter foram injustificáveis. “Ah, porque parece muito com Liga da Justiça.” É verdade. O líder atual dos Guardiões é um bilionário que faz papel de detetive enquanto treina crianças problemáticas para se tornarem armas contra terríveis vilões — um deles, uma mulher chamada Melina, com a agilidade de um gato, e de codinome “A Miau”.

Entre os heróis, temos uma velocista, um rei subaquático que se comunica com peixes, e um rapaz que ganhou super-poderes depois de ser picado por uma aranha. Se você acha familiar, isso não te faz um gênio, porque o autor dos Guardiões não esperava que você não percebesse. Ele nem disfarçou. A série é, dentre tantas coisas, uma sátira.

The Guardians of Justice é a aposta burra da Netflix para competir com The Boys e Invencível, duas adaptações dos quadrinhos na Amazon Prime que também brincam com heróis icônicos e subvertem o gênero da superaventura. A diferença é que essas séries da Prime fazem um bom trabalho.

Adi Shankar idealizou o programa como uma experiência de mídia mista, o que é um conceito audacioso e super interessante. Guardiões da Justiça narra sua história intercalando live action, animação 2D e 3D, e claymation — a técnica de stop motion usada em Fuga das Galinhas. Na minha opinião, isso não gerou poluição visual, e colaborou para o dinamismo da narrativa. Hal Ozshan, um dos atores do seriado, comparou acertadamente sua fluidez ao jazz. Mas boa parte dos críticos acha o contrário. Para eles, tanta informação na tela cria um clima cansativo e confuso.

Para quem gosta de referências dos anos 80 e 90, aqui tem de sobra. Shankar queria transmitir a sensação de estar dentro da mente dele, com interações que parecessem um desenho animado. Daí o show não apenas aludir aos universos DC e Marvel, mas a séries animadas e videogames dos mais variados, incluindo Mortal Kombat, Doom, Tartarugas Ninja, Sin City, Thunder Cats e Street Fighter, além de outros mais obscuros como Final Fight e Celebrity Deathmatch (quem se lembra desses dois está velho ou precisa ser meu amigo).

Mas as referências do seriado não se limitam a duas décadas. Ele também brinca com a série de televisão Batman, dos anos 60, e com os cartuns de Max Fleitcher, criador de Betty Boop nos anos 30. Esse é um dos aspectos mais reconfortantes de Guardiões da Justiça. Quanto mais você se acostuma com o ritmo e bizarrice da série, mais nostálgica ela se torna, e cresce a satisfação de identificar as alusões aos programas e jogos que integraram nossa infância. Além disso, as reviravoltas do último episódio são legais. Mas vamos combinar que isso não justifica sete episódios.

O maior erro de Guardiões, esta série meio-animada nos dois sentidos, é parecer uma produção de categoria B quando não é. O aspecto tosco de certas cenas e tomadas é intencional, até para lembrar o que se fazia na era do VHS. Mas sabe aquela sensação de que algo é tão ruim, que acaba sendo bom? Ela vem de coisas que acertam por acidente. Não dá para forçar isso.

Isso é ruindade fabricada, diferente da ruindade acidental. De alguma forma, ele [Shankar] esqueceu que é na ingenuidade e inocência em cinematografia que acontece a verdadeira grande magia da categoria B.

Bahir Yeusuff

Com trajes e diálogos propositalmente horripilantes, Guardiões da Justiça zomba da categoria super-herói beirando a comédia, mas não chega a fazer rir. Ao mesmo tempo, a mistura de tecnologias do seriado só poderia ser tão bem executada por gente que sabe muito bem o que está fazendo, e você fica com a sensação de que a série não se decidiu entre revolucionar ou avacalhar o seu gênero. É por isso que o pessoal do blog meio bit “não sabe dizer se [o seriado] é bom ou ruim”, e o pessoal do Googler está se perguntando o que Guardiões está fazendo na Netflix.

Termino com meus elogios às cenas animadas em 2D. Se a série toda fosse nesse formato, talvez funcionasse. Algumas são muito bonitas. Porém, se você procura uma produção com tom oitentista realmente divertida, com direito até a David Hasselhoff, prefira o muito superior Kung Fury — trinta minutinhos de uma obra-prima de baixo orçamento que foi selecionada para a Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes. Dá para ver legendado e de graça no YouTube.

AVALIAÇÃO:

Avaliação: 2 de 5.

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