Batman é superestimado?

*alerta de spoilers

Na semana passada, enchi o elenco de Batman de elogios (nesse post aqui, olha). Não apenas por suas atuações, mas também por alcançar a meta de Matt Reeves, diretor do filme, de contar a história do Morcego com uma pegada diferente do que foi feito até aqui. Tem quem ache que o longa está ganhando mais buzz do que merece, então aqui vão coisas a considerar antes de se decidir.

Enfrentando Nolan

Christopher Nolan, como todo mundo sabe, foi o primeiro a trazer o Homem-Morcego para as telonas de maneira realista, tirando de Gotham e seus habitantes aquele visual cibergótico-circense que não colava mais. Como de costume, o diretor de A Origem evitou maquetes e cenários digitais, filmando em cidades reais ou criando sets gigantescos, um dos motivos de Gotham parecer maior que nunca em comparação com seus predescessores.

Crédito: Warner Bros.

Mas a grandeza da trilogia de Nolan não se limita à ambientação. Nem às cenas de ação mirabolantes e trilha sonora arrebatadora. É nessa saga que os filmes do Cavaleiro das Trevas deixam de ser sobre o embate entre um herói e vilões malucos, evoluindo a temas complexos como medo, caos, anarquia, e moralidade. Chris Nolan quis uma versão da história de Bruce Wayne que fosse maior que o Batman, e acabou criando a adaptação cinematográfica de heróis mais densa do cinema.

É comum os fãs quererem mais do que já viram, e se frustrarem com mudanças. Mas a pior coisa que um diretor poderia fazer hoje seria tentar repetir os feitos de Nolan. Como a DC provou com Liga da Justiça e o primeiro Esquadrão Suicida, adaptar a fóruma alheia não funciona. O Batman precisava de uma abordagem nova, e é isso que Matt Reeves oferece, na tentativa deliberada de fazer um filme melhor do que ele.

Eu disse isso diretamente ao Chris Nolan: Olha, estamos tentando ser o melhor Batman já feito, e vamos tentar superar você.

Dylan Clark, produtor de Batman, para a Empire

Batman em marcha lenta

Até aqui, as adaptações do Homem-Morcego para o cinema tinham sido cada vez mais grandiosas, passando pelo espalhafatoso com Joel Schumacher (colãs verde-limão e armaduras com mamilos), chegando a colossal e difícil de digerir com Chris Nolan (metrópole em caos e um empurrãozinho para a loucura). O caminho certo para reintroduzir o super-herói sombrio de Gotham tinha que ser uma diminuição de tom.

The Batman levou algumas tomatadas pela falta de cenas de ação. Conhvenhamos — existe um motivo para o filme ter sido anunciado ao som de Something in the Way, e não Smells Like Teen Spirit, do Nirvana. Matt Reeves teve a intenção de filmar Batman como um noir. É por isso que as explosões, nessa história, dão lugar a um minucioso e discreto trabalho investigativo, com Batman fazendo trabalho de detetive, o que também não tinha sido explorado com o mesmo empenho no telão.

O que temos agora é o filme do Morcego com andamento menos alucinante. Refletindo o comportamento de seu protagonista recluso, é uma obra mais compassada que as demais, com seus personagens e cenários escondidos nas sombras. Nesse mundinho fechado, é incrível como ganhamos um contato mais intimista com Bruce Wayne, com Selina Kyle, e com a própria trama, que nos envolve como uma cria de Zodíaco com Taxi Driver, duas inspirações declaradas de Reeves.

Crédito: Warner Bros.

Essa mudança radical de ritmo pede personagens mais profundos, e é assim que as figuras emblemáticas de Gotham ganham maior gama de emoção para preencher a tela. Selina deixa de ser uma simples ladra meio doida com mania de gato, e se torna uma mulher com profissão e histórico familiar complicados. Alfred deixa de ter uma relação ridiculamente distante do homem que praticamente criou sozinho, e passa a ser retratado com um histórico no MI6, que justifica suas habilidades antes inexplicáveis. Pinguim e Charada deixam de ser caricaturas do animalesco e excêntrico para se tornarem criminosos bem adaptados ao mundo moderno.

Crédito: Warner Bros.

Bruce como você nunca viu

As pérolas de um colar rompido se espalham pelo asfalto de um beco escuro em frente a um teatro, enquanto um garoto encara, aterrorisado, o cano de um revólver apontado para seus pais. Basta um flash, e todo mundo sabe que estamos contando a origem traumática de Batman. O diretor Matt Reeeves explicou à revista americana Empire como sua proposta difere das demais:

Já vimos muitas ótimas histórias sobre Bruce Wayne testemunhando o assassinato de seus pais e depois tentando encontrar uma maneira de lidar com isso ao se aperfeiçoar como Batman. Mas eu queria fazer uma história onde ele já tivesse passado pelas origens e ainda não soubesse exatamente como ser o Batman. (…) E eu queria que as pessoas se conectassem a ele. Não apenas como Bruce, mas como Batman.

O bilionário vigilante de Nolan foi o primeiro a ganhar personalidade. Os filmes anteriores focaram no herói, e deixaram Bruce Wayne um tanto robótico e raso. Mesmo assim, na triologia do Cavaleiro das Trevas, vemos um homem quase resolvido e um herói com amplo domínio de suas habilidades e missão. Como nos filmes anteriores, o Morcego não comete muitos erros. Mas a história do Cruzado não foi sempre essa, e é isso que ainda não tínhamos visto na telona: um Batman que erra, e muito.

Quem acompanha as animações do bat-verso já está acostumado a um Batman em início de carreira, correndo de um lado para o outro por Gotham só para descobrir que não resolveu nada, atrapalhou ou serviu de peão no tabulerio de mentes criminosas mais experientes. É o caso de Batman — a Máscara do Fantasma, de 1993, por exemplo.

Para a revista americana Esquire, Matt Reeves contou que se perguntava como apresentar Bruce Wayne de uma maneira ainda não vista, e explicou a celebrada conexão entre seu Batman e o líder do Nirvana, Kurt Cobain:

E se alguma tragédia tivesse acontecido (…) e esse cara se tornasse tão recluso, que não sabemos o que ele está fazendo? Esse cara é algum tipo de viciado em drogas rebelde, imprudente? E a verdade é que ele é uma espécie de viciado em drogas. Sua droga é seu vício em seu desejo de vingança. Ele é como um Batman Kurt Cobain.

É por isso que, embora todos os atores que encarnaram o Morcegão tenham usado maquiagem preta nos olhos, Robert Pattinson é o primeiro a tirar a máscara e não aparecer magicamente de cara limpa, mas pálido, suado, com uma maquiagem borrada, e visivelmente exausto, não apenas no corpo, mas na mente. Esse visual antecipa que ele não é equilibrado como os outros Cruzados que vimos até agora.

Eu simplesmente amei a ideia de tirar [a máscara] e, por baixo disso, haver o suor e o gotejamento e toda a teatralidade de se tornar esse personagem.

Matt Reeves para a Esquire

Visual, trilha, e outros brindes

Todo filme com uma narrativa mais lenta ganha tempo para aproveitar sua ambientação. Batman, então, chega com tomadas belíssimas e sem prescedentes. Não podíamos esperar menos de Greig Fraser, indicado ao Oscar de Melhor Fotografia por Duna. Jeffrey Wright, que interpreta Jim Gordon, disse em entrevista ao site americano Collider, que Fraser pinta com luz.

Crédito: Warner Bros.

O filme acerta na beleza sem esquecer de algo que todo filme do Homem-Morcego precisa dominar: as bugigangas. Batman introduz tecnologias legais de maneira discreta e que funciona, alardeando apenas a apresentação de um item essencial, que é o Batmóvel. Ele não podia mais parecer um carro de luxo turbinado, mas também não podia ser um tanque outra vez. E a direção de arte acertou em cheio, combinando automóvel esportivo com veículo de combate — cuja revelação tem causado comoção nas salas de cinema.

Esta é a adptação mais escura do Batman para o cinema; intenção do diretor, que não queria colocar em plena luz esse cara, que vive nas sombras literal e metaforicamente. Refletindo esse estado, a Mansão Wayne também foi capturada como a mais obscura de todas que a gente já viu. Outro acerto poético da obra, que ainda apresenta a Bat-caverna mais realista do live action, com cara de galpão, com algumas improvisações — bem diferente das anteriores, que pareciam um misto de museu de alta tecnologia com lounge de casa noturna de luxo.

Crédito: Warner Bros.

Quanto à trilha sonora, esta deve ser a mais comportada de qualquer filme do Cavaleiro das Trevas, encaixando perfeitamente ao estilo noir da obra. Enquanto Something in the Way é tema do nosso Bruce Wayne Emo, Batman ganha sua própria composição, que inspira medo e transpira revanche. A trilha foi produzida por Michael Giacchino, também responsável pela música de Rogue One. Talvez venha daí a similaridade que vários espectadores estão sentindo entre o tema de Batman e a Marcha Imperial, tema de Darth Vader em Star Wars. A semelhança entre as obras é tamanha, que rendeu até mashup no YouTube.

Mesmo dividindo opiniões, a trilha funciona bem com este herói que se autodenomina Vingança (como em Batman: a Série Animada, de 1992), e que se esgueira como uma ameaça iminente na escuridão, coturnos marcando o som de seus passos sob o peso de sua armadura e arsenal.

O Charada também ganha seu próprio tema. Ave Maria, de Schubert, por razões explícitas e implícitas na história. Assim como a trilha do Batman gira em torno de uma frase, é apenas o primeiro verso do hino religioso que se repete durante o filme para aludir ao Charada, mais do que a música cantada. Giacchino brincou com as seis primeiras notas da canção, fazendo uma pequena alteração melódica para torná-la mais sombria e vilanesca.

Quando pintou a primeira imagem desse vilão, pode ter sido decepcionante vê-lo mascarado, especialmente para os fãs de Paul Dano. O que nem todo mundo sabe é que o figurino do Charada foi inspirado nos retratos falados do serial killer da vida real, Zodíaco. É o traje de um assassino que se preocupa em não deixar escapar evidências biológicas que podem denunciar seu DNA.

Representação de Zodíaco, que também usava codificação em suas mensagens

Outra novidade para o Batverso em live action é a elaboração dos vínculos entre Carmine Falcone e Thomas Wayne. Provavelmente só conhece esse rolo quem assistiu à animação Batman: o Longo Dia das Bruxas, do ano passado. Vale a pena conferir essa história dividida em duas partes, seja antes ou depois de ver o filme com Pattinson. (Disponível para streaming na HBO Plus.)

O maior de todos os spoilers vem agora, caso você já não tenha tropeçado nele pelas redes sociais. No final de The Batman, vemos o Charada conversando com um anônimo preso numa cela vizinha em Arkham, que é obviamente o Coringa, interpretado por Barry Keoghan — um perfeito psicopata em O Sacrifício do Cervo Sagrado e A Lenda do Cavaleiro Verde, mas provavelmente mais reconhecido por interpretar Druig em Eternos. Embora seu rosto nunca seja revelado aqui no filme, uma cena cortada entre Pattinson e Keoghan foi liberada esta semana para os fãs se esbaldarem com uma atuação de arrepiar e a aparência mais assustadora do Coringa em live action.

Essas são algumas das razões pelas quais Batman é tão elogiado, e existem outras para merecer tudo isso e ainda concorrer à posição de melhor filme do Homem-Morcego já feito. Para quem assistiu e adorou, segue uma última dica.

O Charada colocou no ar um site chamado Rata Alada. Na vida real, você pode acessá-lo e tentar decifrar alguns enigmas do vilão em inglês, para acesso exclusivo a algumas pistas que ele deixou sobre os mistérios envolvendo os Wayne e o fundo Renovação.

AVALIAÇÃO:

Avaliação: 4 de 5.

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