Será que a felicidade é um mito?

Primeiro eu me perguntei se queria ser feliz. Não deu para responder porque isso me levou a outra questão: o que é felicidade? Olha o que diz a Barbara Axt:

Um dos motivos pelos quais a felicidade é tão difícil de alcançar é que nem sabemos bem o que ela é. (…) Vivemos uma época em que ser feliz é uma obrigação — as pessoas tristes são indesejadas, vistas como fracassadas completas. A doença do momento é a depressão. “A depressão é o mal de uma sociedade que decidiu ser feliz a todo preço”, afirma o escritor francês Pascal Bruckner, autor do livro A Euforia Perpétua. Muitos de nós estão fazendo força demais para demonstrar felicidade aos outros — e sofrendo por dentro por causa disso. Felicidade está virando um peso: uma fonte terrível de ansiedade.

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Agora vocês sabem por que venho pensando sobre esse assunto. E, fazendo isso, eu não tinha interesse numa definição de felicidade que viesse de outra pessoa. Já cansei de perseguir os ideais que os outros inventam só para descobrir que não cheguei lá. Então, em vez de só perguntar o que é felicidade, deixei a pergunta mais específica: O que é felicidade para mim? Acho que, com essa pequena mudança, talvez eu crie uma questão menos filosófica e mais prática.

Antes de chegar a uma resposta, tirei do caminho algumas coisas. Felicidade não é êxtase perpétuo como a gente aprende a esperar quando pensa num futuro ideal. Isso aí está mais para o Paraíso que, se existe, é algo que nenhum ser humano pode experimentar nesta vida, porque o nosso cérebro não consegue ser feliz o tempo todo. Olha o que escreve o psiquiatra Rafael Euba:

Emoções positivas e negativas residem no cérebro, mas a felicidade continuada não tem base biológica. (…) Um estado de contentamento é desencorajado pela natureza porque baixaria nossa guarda contra possíveis ameaças à nossa sobrevivência.

O fato de que a evolução priorizou o desenvolvimento de um grande lobo frontal em nosso cérebro (o que nos dá excelentes habilidades executivas e analíticas) em vez de uma capacidade natural de ser feliz, nos diz muito sobre as prioridades da natureza. Diferentes localizações geográficas e circuitos no cérebro estão associados a certas funções neurológicas e intelectuais, mas a felicidade, sendo uma mera construção humana sem base neurológica, não pode ser encontrada no tecido cerebral.

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Decidi que felicidade não pode ser alegria constante, o que parece óbvio, mas temos a tendência de resistir porque ninguém quer tristeza na vida. Combinamos uma série de ideias que temos em torno de deuses, carma e leis de retorno com a certeza de que somos pessoas boas e merecemos coisas boas. Teimamos esperar pelo dia em que os humilhados serão exaltados, sempre imaginando um futuro em que não perdemos amigos, empregos, e bens. Então, sempre que o futuro chega, nos desapontamos com suas surpresas, por melhor que a vida esteja, porque aquilo não era o que esperávamos.

Mas e se nada me faltasse? E se eu me descobrisse herdeiro de uma fortuna desconhecida e nunca mais precisasse trabalhar na vida, podendo gastar à vontade com o que quisesse? Nesse caso, tive que questionar a ideia de que felicidade é plenitude; é não ter falta.

Rosario Fiorello, Matt Damon e Jude Law em O Talentoso Ripley — Paramount, 1999

Viver como Dickie Greenleaf, de O Talentoso Ripley, é um sonho atraente para qualquer um: não precisar trabalhar e poder usar todo o seu tempo para gastar com viagens e curtição. Mas acredito que a euforia de ter e poder tudo não duraria. As histórias de muitos Jim Carreys e Amy Winehouses me apoiam nessa. Uma vida de conforto pode ser uma sem desafios. E, por mais que eu não seja o tipo de pessoa que adora ser desafiado, parece que nossos cérebros, em caso de tédio, tendem a criar depressão para nos empurrar adiante. Vamos voltar à primeira matéria que citei, que compara a felicidade a uma cenoura na ponta de uma vara de pesca amarrada à nossa cintura:

Felicidade, por definição, é um estado no qual não temos vontade de mudar nada. Ou seja, se passássemos tempo demais assim, nossas vidas estacionariam. A busca da felicidade é o que nos empurra para a frente — se agarramos a cenoura, paramos de correr e a brincadeira perde completamente a graça. Portanto, um pouco de ansiedade, de insatisfação, é perfeitamente saudável.

Barbara Axt

Se vocês leram meu último texto, sabem que não estou interessado pela busca da felicidade, justamente porque não acredito em correr atrás do vento. Quero dizer, não tenho esperanças de alcançar a vontade de não mudar nada porque a vida finalmente ficou perfeita. Caso contrário, estaria preparando uma armadilha de frustração para mim mesmo, porque viver é ser surpreendido por altos e baixos que fogem do nosso controle. E uma coisa é querer que as coisas melhorem. Outra é viver ansioso por felicidade.

Mas isso não significa que eu não concorde com as palavras da Barbara. Recorri a elas justamente para reforçar que a felicidade não está na plenitude. Essas palavras do doutor Euba vão conectar e desdobrar tudo isso:

Essas estratégias [de busca pela felicidade] apenas tentam encontrar um remédio para nossa incapacidade inata de aproveitar a vida de maneira consistente, de modo que devemos nos consolar por saber que a infelicidade não é realmente nossa culpa. É culpa do nosso design natural. Na verdade, especialistas neste campo argumentam que o fracasso da natureza em eliminar a depressão no processo evolutivo (apesar das óbvias desvantagens em termos de sobrevivência e reprodução) se deve precisamente ao fato de que a depressão como adaptação desempenha um papel útil em tempos de adversidade, ajudando o indivíduo deprimido a se desvencilhar de situações arriscadas e desesperadoras nas quais ele não pode vencer.

Rafael Euba

Isso tudo me ajuda a desbancar mitos que me ensinaram sobre o que significa ser feliz. Mas o que é felicidade para mim? Isso a gente conversa na próxima.

Por que não busco a felicidade

Gatsby estende a mão rumo à simbólica luz verde em frente a sua casa, em O Grande Gatsby — Warner Bros., 2013

Ben Platt canta assim:

Quando você é jovem, deseja ser mais velho. E, quando fica mais velho, deseja que o tempo volte atrás.

Older — Ben Platt, Jennifer Decilveo, Michael Pollack, Nate Cyphert

Parte do motivo de nos identificarmos tanto com essas palavras é que aprendemos a associar a felicidade com o futuro.

Quando eu tiver minha independência… Quando eu morar naquela cidade… Quando ocupar aquele cargo… Quando formar uma família… Ganhar um salário X… Aí, sim!

Estamos sempre perguntando por que não somos felizes, mas relegamos a felicidade a um cenário além do nosso alcance. Raramente imaginamos ser felizes aqui e agora, com todos os nossos problemas. A felicidade fica num mundo imaginário que não sabemos se um dia vai se manifestar, onde superamos o que temos hoje e adquirimos o que ainda não temos.

Lembra quando os adultos disseram que uma coisa não era tão legal quanto parecia na propaganda? Mas você insistiu até ganhar aquilo de presente. Pegou na mão, teve uma euforia que durou cinco minutos, e percebeu: não era tão incrível quanto parecia. Mas não aprendemos a lição. O mundo está cheio de gente grande que colocou todas as suas fichas num sonho que perdeu a graça logo que se realizou. Barbara Axt escreveu:

Felicidade é uma cenoura pendurada numa vara de pescar amarrada no nosso corpo. Às vezes, com muito esforço, conseguimos dar uma mordidinha. Mas a cenoura continua lá adiante, apetitosa, nos empurrando para a frente.

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Jim Carrey já disse que “todo mundo deveria ficar rico e famoso, e fazer tudo o que sonhou na vida, para ver que isso não é a resposta”. E você deve ter ouvido o mesmo tipo de depoimento de outras celebridades que alcançaram “tudo”. Ou talvez tenha escutado, em alguma palestra do TED ou num documentário, que as pessoas mais felizes do mundo não estão procurando ser felizes.

Para mim, a felicidade não pode ser um alvo, porque quero ser feliz aqui e agora, não apenas no futuro. Eu não acredito que possa ser feliz buscando a felicidade, porque você só busca o que não possui.

Quem nunca disse “Eu era feliz e não sabia” já ouviu alguém dizer. A gente achava que a felicidade estava no mais: mais do que tínhamos, mais do que éramos, mais do que fazíamos. Olhamos para a felicidade como um lindo horizonte que nos distraiu da beleza que nos cercava no momento. E, quando chegamos ao que vislumbramos, não passava de uma miragem.

Não estou dizendo que a felicidade não existe. Antes de decidir isso, a gente precisaria definir o que é felicidade. Mas quem diz “Eu era feliz e não sabia” afirma que a felicidade já fez parte da sua vida, sem a ajuda do que o futuro reservava. Para mim, isso significa que a felicidade não está nas coisas. Não vou reforçar o clichê de que ela está “dentro de nós”. Mas, no momento, acredito que ela não é algo que se alcança nem se possui — é algo que se pratica.

Trintão

Sem maturidade para isso – Netflix

A gente aprende o medo de virar um trintão. Uma pessoa que prefere Netflix a balada, e cujo melhor amigo é o marido ou esposa. Alguém que se anima com um bom restaurante, mas não vê graça na ideia de ficar “bem louco”. E, quando percebo que já virei esse cara, uma parte de mim lamenta a energia que não tenho mais.

Na minha adolescência, se a festa estava ruim, eu dava um jeito de animar todo mundo. Se o papo era chato, eu fazia os outros rirem. Hoje só quero evitar esse tipo de situação. Eu me recuso a me desdobrar para alegrar ambientes sem graça. Prefiro ir embora com uma desculpa e procurar um filminho. De preferência bobo, que não tenha nada a ver com os dramas profundos que eu adorava quando era moleque.

Meu Deus! O que está acontecendo comigo? Estou ficando velho?

A parte da minha mente que pergunta isso deve ser minha memória. O eu do passado que às vezes não percebe que não manda mais, e acha que pode ser jovem para sempre, que é uma questão de escolha; de se manter “positivo”. Como se ficar um pouco mais velho, desanimado e ranzinza fosse negativo. Na verdade, é bem gostosinho.

A parte mais atual da minha cabeça sabe que esperar de mim a personalidade que tive há dez anos é o mesmo que desejar, aos vinte, a personalidade que tinha aos dez.

Eu não quero ser um adulto sempre igual, porque isso significa que não estou crescendo. Nada que cresce fica sempre com a mesma cara.

A lucidez me encontra quando reparo que é um privilégio cantar “meu melhor amigo é o meu amor”. Que nenhum amigo da minha juventude se compara ao meu namorado.

Ser a alegria da festa pode ser divertido quando a gente tem energia de sobra. Mas uma festa que depende de mim para ficar boa, sinceramente, é uma festa ruim. E muitos filmes são melhores do que festas ruins.

Nossas expectativas impráticas de ser eternamente jovens são alimentadas pela constante romantização da juventude na nossa cultura. E sim, ser jovem é se aventurar, sonhar, e um monte de outras coisas boas. Mas também é inexperiência, ingenuidade, fragilidade, e um monte de outras coisas que só melhoram com tempo.

Meu metabolismo está desacelerando. Estou começando a me interessar por colágeno, e café pode me deixar ansioso. Mas, nesse corpinho trintão, me encontro mais confortável do que nunca. Não apenas com minha aparência, mas com minhas escolhas e identidade. Hoje, gosto mais da vida do que quando eu era adolescente.

Para o jovem, a desilusão é um pesadelo. Para o adulto corajoso, uma das melhores amigas — coisa que um jovem pode achar sombrio, mas eu sei que é pura sorte.

Deixo de me cobrar por quem eu era quando percebo que estou mais em paz comigo e com o mundo do que jamais estive. Que maturidade não é peso; é bônus. Mudar não é apenas inevitável, como esperado. E crescer é um presente.

Busquei ajuda psiquiátrica

BoJack Horseman, da Netflix

Ouvi relatos parecidos várias vezes. Uma pessoa disse que um parente tinha começado um tratamento psiquiátrico e perdido boa parte da sua personalidade como consequência. Não sentia mais a tristeza paralisante da depressão, mas também não sentia grandes alegrias. Um amigo me falou que era difícil não viciar em medicamentos controlados, e outro contou que passava mal sempre que precisava tomar o seu.

Não quero invalidar testemunhos assim. Só quero dizer que nem todas as pessoas têm a mesma experiência com medicação. Uma coisa que qualquer bula vai te dizer é os efeitos de um medicamento podem variar de pessoa para pessoa. O meu caso, por sorte, não parece com nada do que a gente sempre escuta por aí. Comecei um tratamento psiquiátrico há um mês, e quis compartilhar isso justamente para que você saiba que histórias de terror não são as únicas que existem.

Eu sofro de ansiedade. Com a pandemia, meus sintomas se agravaram, como aconteceu com muita gente. Depois, percebi que também tinha sintomas de depressão.

Uns anos atrás, procurei acompanhamento terapêutico e, mais tarde, descobri a meditação — dois fatores que me ajudaram muito além do que eu esperava. Mas agora não estamos em circunstâncias normais. Eu acredito que situações extraordinárias podem pedir medidas extraordinárias, e entendi que precisava de medicação depois de um episódio marcante.

Tive uma crise de ansiedade que me levou ao hospital. Achava que fosse algo ruim que comi ou uma virose, mas o clínico que avaliou os meus vários sintomas bizarros me encaminhou a um psiquiatra.

Eu tomo um remédio no começo do dia, que é antidepressivo e ansiolítico. Tomo outro antes de dormir, para assegurar um sono de qualidade, que é crucial para a saúde mental, e eu nem sabia. Nenhum desses medicamentos é de tarja preta, eles não viciam, e eu não tive nenhuma reação problemática a eles.

Minha médica esperava que eu visse resultados na terceira ou quarta semana de uso dos remédios, mas comecei a me sentir radicalmente melhor logo na segunda semana. Começamos o tratamento com as doses mínimas e, no fim do mês, percebi que não era o suficiente, porque, mesmo medicado, tive uma crise que nem sei direito como começou.

Na minha última consulta, aumentamos a dose do remédio diurno. O da noite continua me garantindo um sono melhor do que eu lembrava que existia. Agora é ver se consigo ficar estável.

O principal motivo de eu contar tudo isso é encorajar você, que sabe que precisa de ajuda profissional. Talvez seus amigos tenham dito para você procurar um psiquiatra. Talvez sua família tenha dito que isso é coisa de louco. Seja como for, espero que você se identifique comigo, que posso contar minha recente experiência sem nenhuma vergonha. Eu estou feliz e orgulhoso de me responsabilizar pela minha saúde contra todos os preconceitos. Me sinto cada vez melhor, e desejo o mesmo para você.

Todo mundo precisa de ajuda de vez em quando. Ninguém chega a lugar nenhum sozinho. Transtorno de ansiedade e depressão são doenças. Busque ajuda. Continue corajoso.

Não sei fazer amigos

Elenco de Friends

Estou para completar três anos das decisões mais importantes da minha vida. Saí da casa dos meus pais, deixei a religião que comportava todos os meus amigos, comecei a namorar, e mudei de cidade.

A premiada com este cidadão ilustre foi Americana, onde tento fazer amigos há dois anos. Eis os principais obstáculos:

  • Eu já não tenho a disposição que tive para investir nos outros;
  • A pandemia;
  • Morar numa cidade não hospitaleira.

Os colegas que se interessaram pela minha adaptação à cidade me ouviram contar como tem sido difícil fazer amigos. Todos se identificaram. Disseram que isso não acontece só com forasteiros, e que eles mesmos acham o povo daqui fechado. Maravilha.

Todo gay novo acha que sair do armário é receber o acolhimento da comunidade LGBTQIA+. (Primeiro, ser odiado por um monte de gente; depois, ser acolhido.) Mas eu e outros gays podemos garantir que isso é um mito. Viados parecem mágicos de vez em quando, mas podem perfeitamente se comportar como qualquer outro ser humano, e deixar os novatos se virando sozinhos.

Sim, com a pouca energia que me resta para fazer amigos, conheci vários coleguinhas do arco-íris, em pessoa ou pela internet. Mas nossos relacionamentos são quase sempre uma troca de curtidas no Instagram e nada mais.

Fazer amigos só é fácil antes dos seis anos ou coisa assim, quando a gente não precisa explicar o que é amizade nem tem muitas expectativas sobre as pessoas. Depois que conceituamos amizade, complicamos a criação de novos amigos.

O que significa “amizade”? Tenho a impressão de que todo mundo acha que a resposta é óbvia. Mas, se você perguntar por aí, vai ter as respostas mais variadas.

Decepcionado inúmeras vezes com ex-migos, cheguei a fazer essa pergunta para amigos potenciais, numa fase da minha vida. Nunca ouvi uma definição repetida. E nunca encontrei alguém que conceituasse amizade do mesmo modo que eu. (O que é absurdo, porque a minha opção, obviamente, é a mais lógica.)

A busca frustrada dos últimos anos (para ser sincero, de uma vida inteira), me levou a reavaliar o significado de amizade. Reconheci que eu tinha uma visão bem fechada do assunto. Esse novo posicionamento ainda não me ajudou a fazer nenhum amigo, mas pelo menos me trouxe dois benefícios. Primeiro, não sofrer demais pelos amigos que foram embora. Segundo, ser mais realista sobre os colegas que não se tornam amigos. Entender que isso não os torna terríveis. Menos bacanas que eu, com certeza, mas não terríveis.